Qual o real valor dos profissionais da saúde para a população? E para o Brasil?

Temos no Estado de São Paulo mais de 700 mil trabalhadores.E é essa legião de profissionais que está à frente da guerra travada para combater a pandemia pelo novo coronavírus.

05/08/2020

Temos no Estado de São Paulo mais de 700 mil trabalhadores na área da saúde somente nas esferas particular e filantrópica. Computados os profissionais da rede pública, esse número, no mínimo, duplica. E é essa legião de profissionais que está à frente da guerra travada para combater a pandemia pelo novo coronavírus.

E é altíssimo o índice de contaminação entre os trabalhadores da saúde. Os números são imprecisos, mas calcula-se que por volta de 30% dos cidadãos infectados são profissionais da saúde. Algumas cidades chegaram a apresentar 50% de trabalhadores infectados. E por que o índice é tão alto? Temos algumas considerações a este respeito.

Desde o início da pandemia, os dirigentes sindicais do setor alertam para a necessidade de os hospitais oferecerem aos seus funcionários, independente do setor de atuação, equipamentos de segurança adequados e em número suficiente.

A última pandemia enfrentada no Brasil, a gripe espanhola, aconteceu há 100 anos, em 1918. E por ser uma situação que foge do cotidiano, cobramos dos estabelecimentos de saúde que os profissionais sejam treinados adequadamente para o exercício profissional tendo por referência a pandemia. E, mais, cobramos sistematicamente a testagem periódica dos profissionais visando evitar o aumento da infecção. Mas, infelizmente, muito pouco foi feito após cinco meses do início da pandemia que já contaminou mais de 2 milhões de indivíduos.

Os hospitais, em sua grande maioria, não oferecem equipamentos de segurança em número suficiente. Chegamos a ver trabalhadores usando máscara de tecido no ambiente hospitalar ou profissionais proibidos de utilizar os sanitários durante o plantão, em virtude da falta de equipamentos para nova paramentação. E por falar nessa questão, sabemos que as contaminações ocorrem, em maior escala, nos momentos de paramentação e desparamentação dos profissionais. Ou seja, os treinamentos não estão funcionando.

Para piorar a situação, com os afastamentos impostos pela doença, trabalhadores não são substituídos. Com isso, muitos são obrigados a dobrar o plantão, realizar horas extras, aumentando em muito os riscos.

O Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) divulgou no dia 1 de maio, o Parecer Normativo nº 02/2020 (veja reportagem nessa edição) no qual regula o dimensionamento de pessoal necessário para a segurança dos profissionais em tempos de pandemia pelo COVID-19. Os hospitais estão longe do ideal, independente se são do setor público ou particular.

Mas entendemos que nesta batalha cada um deve cumprir o seu papel. Os profissionais da saúde estão fazendo o seu. São aclamados pela população que reconhece neles verdadeiros guerreiros da pandemia, os anjos da saúde. Mas nos perguntamos: o que estão fazendo os gestores dos hospitais? O que estão fazendo os gestores governamentais da saúde?

Esses profissionais precisam ser valorizados e cuidados para que possam exercer o seu ofício de cuidar da saúde da população. E isso deve começar pelos cuidados com a saúde e segurança dos mesmos. E seguir com o reconhecimento do trabalho e dedicação de sempre. Tanto da parte patronal quanto dos governos municipais, estaduais e federal.

Quem está cumprindo a sua parte? Os trabalhadores que estão em Campanha Salarial ouvem dos patrões coisas como “reajuste salarial zero” ou a irônica “vamos manter os empregos”.

Por outro lado, desde março de 2020, o Ministério da Saúde gastou apenas 29% do valor destinado pelo governo federal ao combate do novo coronavírus. O valor foi revelado em uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União), obtida pela Folha de S. Paulo.

De uma dotação orçamentária prometida para combater a pandemia, no valor de R$ 38,9 bilhões, apenas R$ 11,4 bilhões vindos dos cofres federais foram gastos em ações contra a covid-19 até 25 de junho, computando tanto o dinheiro gasto diretamente pela pasta da Saúde como ao que foi enviado a Estados e municípios. O relatório do TCU mostrou que Estados receberam 39% da verba anunciada e os municípios, 36%.

O governo brasileiro corre o risco de ser responsabilizado por seus atos, assim como os estabelecimentos de saúde que não cumprem as diretrizes de segurança e não dão o devido valor e reconhecimento aos seus colaboradores.

Edison Laércio de Oliveira
Presidente da Federação Paulista da Saúde
(www.federacaodasaude.org.br) 

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