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Caminhar é preciso – entenda o poder da caminhada

23/11/2021

Muita gente não pratica exercícios porque, em um primeiro momento, eles geram estresse e desconforto ao organismo. É fato: se fosse algo prazeroso logo de cara, todo mundo seria ativo.


Mas a realidade não é bem essa: correr, levantar peso ou praticar um esporte coletivo coloca o corpo numa situação de esforço muito além da condição de repouso. E, se ele não estiver acostumado, a conta vem no dia seguinte: dores, fadiga muscular e um eventual balde de água fria no sonho de vencer o sedentarismo.

A culpa não é exatamente nossa: biologicamente, os animais não foram feitos para gastar energia à toa. Tirando fazer sexo, procurar comida e escapar de predadores, a tendência é descansar e relaxar, guardando todas as reservas para quando uma necessidade surgir, o que já era suficiente para manter o organismo saudável.

Acontece que a inteligência humana tornou as atividades essenciais, antes laboriosas, tranquilas e até monótonas: comidas chegam em casa com um clique no aplicativo, o trabalho em frente ao computador (ainda mais com a pandemia) nunca foi tão parado e até no sexo existem jeitinhos de ter prazer com menos esforço — que o digam as modalidades virtuais.

Daí que há uma conjuntura bem propícia ao sedentarismo. De acordo com uma pesquisa de 2019 com dados de 60 mil brasileiros, 69% da população não realizava nenhum exercício físico em seu tempo livre.

“Isso acontece por diversos fatores, como longa carga de trabalho, ausência de espaço e de recursos financeiros e até por falta de conhecimento sobre a importância dessa prática”, explica a epidemiologista Margareth Guimarães Lima, pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autora do estudo.

Ocorre que o corpo humano foi desenhado para se movimentar. “A gente precisa estimulá-lo, porque ele evoluiu para isso. Ficar o dia inteiro sentado é muito prejudicial à saúde. Causa atrofia muscular, doenças cardiovasculares, problemas metabólicos e vários outros”, afirma a profissional de educação física Cláudia Forjaz, professora da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo (USP).

É por isso que suar a camiseta ou o top aparece em qualquer diretriz de saúde como algo indispensável para evitar doenças, resguardar nosso aparato emocional e até firmar relacionamentos sociais.

Sem falar que, quando praticadas com regularidade, as atividades físicas induzem a liberação de hormônios por trás daquela sensação de prazer e bem-estar. Tem tudo a ver com costume: o corpo se adapta ao esforço, entende que aquilo virou rotina e se desenvolve até você não sentir mais incômodos — e pode até querer se superar.

Já que se mexer é preciso, por que não partir para um exercício fácil, barato, seguro e que pode ser realizado em quase qualquer lugar? Sim, falamos da caminhada, a modalidade mais popular entre os brasileiros (inclusive na pandemia) e frequentemente aquela com os benefícios mais subestimados.

“Caminhar é um movimento natural, que a gente, enquanto espécie, faz para sobreviver. E, exatamente por ser tão simples, as pessoas acabam achando que não traz vantagens. Só que é o contrário: estamos estimulando algo que nascemos para fazer e tem uma grande importância para o organismo desde sempre”, defende Cláudia, que coordena há 21 anos o projeto Exercício e Coração para conscientizar e orientar pessoas a darem suas passadas.

Termine de ler e vá caminhar
Você pode até pensar que é exagero, mas apostar em uma atividade aparentemente tão trivial no dia a dia é capaz de transformar o corpo e a mente. E aqui convém compartilhar uma recomendação dos experts.

Embora todo movimento na rotina seja bem-vindo — levantar da cadeira para pegar um copo de água ou ir a pé até o trabalho, por exemplo —, devemos ocupar um espaço da agenda com um exercício programado, como uma hora de caminhada pela manhã. Tudo isso ajuda a compor um número mínimo de passos diários que influencia a nossa saúde.

Um novo estudo da Universidade de Massachusetts, nos Estados Unidos, concluiu que andar pelo menos 7 mil passos por dia reduziu de 50 a 70% a mortalidade por qualquer causa entre os mais de 2 mil americanos de 38 a 50 anos avaliados. Ou seja, somar cerca de 5 km caminhados faz bastante diferença no estado do organismo.

O relatório Walking for Health, emitido pela Escola Médica de Harvard, nos EUA, corrobora o ponto de vista de que caminhar pode fazer mais para prevenir e combater doenças do que outras atividades. Nele, os especialistas destacam os grandes feitos do hábito em prol do coração: andar pelo menos duas horas e meia por semana — apenas 21 minutinhos por dia — ajuda a reduzir o risco de problemas cardíacos em 30%.

“Existe uma redução crônica da pressão arterial após a prática constante da caminhada. E a dilatação das artérias impacta o ritmo cardíaco, fazendo com que o coração trabalhe com menos esforço para ejetar a mesma quantidade de sangue ao corpo”, explica Aluísio Andrade Lima, professor do Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade Federal de Sergipe (UFS).

O educador físico pesquisou o potencial de um treinamento de caminhada para pessoas com problemas circulatórios — como doença arterial periférica e claudicação intermitente, que afetam os membros inferiores — e constatou que o exercício atenua processos orgânicos prejudiciais envolvidos nessas condições.

Quem também agradece pelas passadas diárias por aí são os pulmões. “A caminhada é extremamente positiva, pois eles ficam mais resistentes e conseguem tirar o oxigênio do ar com mais facilidade.

Uma forma fácil de notar isso é quando a pessoa vai ficando menos ofegante à medida que vai praticando”, observa o médico do esporte Páblius Staduto Braga, diretor do Laboratório de Ergoespirometria e Calorimetria Indireta do Hospital Nove de Julho, em São Paulo. O que a gente ganha com isso? Fôlego e um melhor fluxo respiratório.

+Leia também: Corrida de rua: uma forma de retomar os treinos regulares

Além disso, andar e andar pode até desencadear um efeito analgésico, tornando-se um recurso coadjuvante no controle de dores crônicas.

“Hormônios produzidos durante a atividade física promovem uma inibição da dor, deixando, com o tempo, o organismo mais tolerante, sem falar na sensação de bem-estar advinda de outros hormônios resultantes da prática de exercícios”, explica o educador físico Vitor Tessutti, mestre em ciências da reabilitação pela USP e pesquisador nas áreas de corrida e caminhada.

Aliás, engana-se quem pensa que só correndo a gente consegue legítimos benefícios à saúde. De acordo com um relatório da Associação Americana do Coração, que estudou corredores e caminhantes por seis anos, andar é tão efetivo quanto correr para a prevenção e o controle de colesterol alto e diabetes.

“O exercício não só ajuda diretamente nesse controle como contribui para uma melhor ação dos medicamentos usados para esses problemas de saúde”, afirma Braga. “Por isso, ele tem de fazer parte do tratamento”, ressalta o médico.

O cérebro, claro, não fica de fora dessa história. Ora, talvez você já tenha experimentado outro poder da caminhada: o de clarear as ideias. Não é à toa que pessoas saem para dar uma volta quando estão confusas e querem pensar melhor em soluções. Isso realmente ajuda!

Filósofos como Immanuel Kant e escritores como Virginia Woolf eram adeptos de caminhadas regulares para compor suas obras ou mesmo espairecer de seu universo. A ciência atual assina embaixo: caminhar interfere no raciocínio, na memória e até na criatividade.

Numa pesquisa da Universidade Stanford, nos EUA, 176 estudantes foram colocados para fazer testes de pensamento criativo enquanto sentavam, caminhavam em uma esteira ou pelo campus. No geral, todos apresentaram maior capacidade de resolução e inovação enquanto andavam.

“Caminhar estimula o livre fluxo de ideias, e é uma solução simples e robusta para objetivos como aumentar a criatividade e a atividade física”, escreveram os autores na conclusão do artigo.

Fonte: VEJA SAUDE
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